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Problemas de “Governança” e Gestão Explicam em Parte Extinção do VLS-1

Brasil Política Espacial VLS-1 Agência Espacial Brasileira VLM Alcântara

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#1 Soheil

Soheil

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Posted 08 May 2016 - 11:43 PM

4 de maio de 2016


Sem a divulgação sequer de algum documento oficial que explicasse os motivos à sociedade brasileira, o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) e a Agência Espacial Brasileira (AEB) decidiram anunciar, em audiência pública realizada no Senado Federal em 16 de fevereiro, o fim do Projeto Veículo Lançador de Satélite-1, ou VLS-1, como noticiou em manchete a edição 45 do Jornal do SindCT. A pá de cal ocorreu em 29 de fevereiro, quando o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE/DCTA) convocou toda a sua força de trabalho para anunciar novas propostas de veículos lançadores em substituição ao VLS-1, dando fim, na prática, a este projeto.

A ideia das autoridades envolvidas foi, provavelmente, revelar sem maior alarde essa estarrecedora decisão, talvez porque, aos olhos do mundo, ela aponte nítida incompetência nacional no desenvolvimento de veículos lançadores de satélite (foguetes), modalidade de tecnologia altamente estratégica, especialmente para países do porte econômico e territorial do Brasil, detentor de uma das dez maiores economias do planeta.

Toda a responsabilidade recai, inevitavelmente, sobre quem estava à frente do projeto: o IAE e o DCTA, órgãos executores; a AEB, órgão político teoricamente responsável pela condução do setor espacial; e os dois ministérios a que eles se reportam, respectivamente o Ministério da Defesa (MD) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Desse modo, o triste desfecho do projeto VLS-1 acabou desnudando o Palácio do Planalto.

Portanto, 16 de fevereiro de 2016 ficará marcado para sempre como um dia inglório para o setor espacial, quando, em tom apenas oficioso, a má notícia foi timidamente admitida pelos responsáveis pelo projeto, na audiência pública promovida pela Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática (CCT) do Senado Federal.

Naquela fatídica data, o presidente da AEB, José Raimundo Braga Coelho, deu por esgotadas as perspectivas do VLS-1: A maior prioridade da área de lançadores hoje destina-se ao Veículo Lançador de Microssatélites (VLM). Trata- -se de projeto em parceria com a agência espacial alemã (DLR) e participação efetiva da indústria nacional, em um processo de resultados absolutamente convergentes, disse.

Já o brigadeiro Alvani Adão da Silva, então diretor do DCTA, emendou sobre o VLS-1: Ele já cumpriu o seu papel de desenvolver tecnologia, formação de quadros, preparação do centro de lançamento. E reforçou o discurso do presidente da AEB: Hoje, efetivamente, a nossa prioridade é o VLM, conforme já dito pelo professor Raimundo [...] focamos toda a nossa atenção, hoje, no desenvolvimento do VLM, que é um veículo muito mais simples, mais rápido de ser produzido, mais barato, e que entendemos ter um potencial grande de aplicação.

Um experiente servidor do IAE assim reagiu a esses comentários feitos no Senado: É tudo deprimente. A afirmação de que é mais simples, rápido e barato é reveladora do desconhecimento técnico desses senhores. Pergunto a vocês: e a grana que foi despendida ao longo dos últimos 13 anos? É simples assim? E a satisfação que nunca foi oferecida aos profissionais que por 30 anos dedicaram suas vidas ao projeto e agora são informados de que tudo acabou? É isso mesmo?


Reunião de 29/2


No dia 29 de fevereiro, os funcionários do IAE ouviram uma explicação oficial da extinção do projeto (já registrada na Rapidinha 4, de 22 de março). Na ocasião, o coronel Antonio H. Blanco Ribeiro explanou sobre a atual situação do VLS-1 e as propostas de novos lançadores e sondas. O coronel Blanco abriu sua exposição com uma metáfora bastante ilustrativa, dizendo que chegou o momento de colocar o coração de lado. Uma outra forma de comunicar que Aeronáutica e AEB decretaram o fim do projeto VLS-1.

Em seguida, o oficial disse que a falta de recursos impossibilitou o andamento das atividades relacionadas ao VLS-1 e o desenvolvimento do projeto. Mas ele alegou também que, ainda que todo recurso financeiro necessário fosse disponibilizado, haveria impossibilidade de um lançamento do VLS-1 dentro dos próximos anos. Componentes essenciais para um bom funcionamento do lançador estariam chegando ao fim do prazo de validade. Mesmo assim, o coronel procurou dar um tom otimista à apresentação: relembrou a família de foguetes de sondagem desenvolvidos com sucesso pelo IAE (Sonda 1,2 3, 4 e VS-40) e considerou que o desenvolvimento do VLS-1 foi um grande salto de desenvolvimento.

Dada a existência de uma grande lacuna entre o VS-40 e o VLS-1, o IAE pretende preenchê-la por meio do desenvolvimento dos seguintes lançadores: VS-43, VS-50 e VLM. O VS-43 seria um veículo simples, com subsistemas menores e dimensão mais próxima da parte alta do VLS-1 (aproveitando o grande estoque de material do VLS-1). Entre as missões do VS-43, de microgravidade e reentrada da atmosfera, o foguete também faria ensaio em voo do SISNAV (Sistema de Navegação de Foguetes em desenvolvimento no DCTA), ensaio de eventos para satelitização e preparação para o VS-50 e VLM.

O VS-50 teria dois estágios e seu principal objetivo seria o desenvolvimento do motor. Com o VS-43 e o VS-50, poderiam ocorrer diferentes combinações de montagens de motores e estágios, abrindo o leque de possibilidades para o VLM. A Torre Móvel de Lançamento (TMI) de Alcântara (MA) poderia ser utilizada, porque 1) os novos lançadores seriam de dimensões próximas ao VLS-1 e 2) ela foi projetada de modo a permitir ajustes de altura nas plataformas, visando novos modelos de lançadores.


O que nos falta?


Um programa espacial exitoso é aquele que confere ao país autossuficiência para colocar satélites em órbita e deixá-los em pleno funcionamento. Ou seja, dominar tecnologias para desenvolver foguetes e satélites, além de manter um centro de lançamento. São partes importantes do programa o rastreamento dos satélites para envio de telemetrias e telecomandos, bem como as estações terrenas para recepção e envio de dados ao satélite Ao Brasil, Grosso Modo, falta o lançador, ou seja, o foguete capaz de colocar satélites em órbita.

No entanto, agora abre-se um fosso ainda maior para desenvolvê-lo, tanto por conta da decisão das autoridades do setor de abandonar o projeto VLS-1, como pela perda de pessoal por aposentadoria, já que a equipe que vem desenvolvendo o projeto por três décadas está em vias de se aposentar, podendo levar a uma perda de conhecimento irreparável.

Temos aqui no Brasil o que pode ser chamado atividades espaciais e não um programa espacial, porque, conceitualmente, para denominá-lo assim teríamos que ter um processo completo dominado e em pleno funcionamento, explica um pesquisador do IAE que pediu para não ser identificado.

Quando se indaga aos envolvidos no projeto os motivos pelos quais o VLS-1 não obteve êxito, as respostas apontam vários fatores: falta de recursos e descontinuidade dos repasses; o acidente de 2003 em Alcântara; as incontáveis revisões de projeto, sobretudo após o acidente; os atrasos da empresa Mectron/Odebrecht; a falta de pessoal; a falta de domínio tecnológico de subsistemas críticos; e outros.

Uma análise técnica mais criteriosa, possivelmente, apontou sua inviabilidade técnica por obsolescência, que é na verdade um desdobramento de um problema de gestão transcorrido ao longo de três décadas. Um projeto assim não pode ficar tanto tempo sendo preparado, porque as peças envelhecem e depois não conseguem conversar entre si. A mera substitui- ção pode não funcionar porque será preciso fazer adaptações, que d e p e n d e n d o do caso podem inviabilizar o próprio projeto. Isso não é exclusividade do VLS-1: é assim para todo tipo de desenvolvimento tecnológico, avalia outro servidor do IAE.

Embargo Foguetes servem tanto para conduzir um satélite como uma carga militar: um artefato explosivo, por exemplo. Por essa razão, são mais sujeitos a embargos e restrições do que um satélite, e este é um dos grandes desafios.

O VLS-1 só pôde ser testado porque o Brasil, valendo-se de uma parceria de altíssima confiança, conseguiu comprar da Rússia quatro Sistemas de Controle de Atitude e Órbita (AOCS, na sigla em inglês). Sob o comando de um computador em solo e outro embarcado, um AOCS corrige a rota do veículo em voo.

Dois dos AOCS fornecidos pela Rússia foram usados para testes do VLS-1, em 1997 e 1999. O terceiro explodiu no acidente ocorrido no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), em 2003. O quarto e último foi inutilizado quando foi realizada engenharia reversa, que consiste em desmontar e tentar entender um determinado equipamento. Atualmente, uma versão nacional de AOCS está em fase avançada de desenvolvimento no Laboratório de Sistemas Inerciais para Aplicação Aeroespacial (LabSIA), parceria entre DCTA e INPE.

Uma outra questão que pode ter comprometido o VLS-1, em termos de embargos, foi o tipo de propelente empregado: o sólido, que é o mesmo utilizado em mísseis. Em tese, o VLM não enfrenta esse problema, porque utiliza propelente líquido.


Começar do Zero


Sinceramente dizendo, vamos começar do zero. Não tem nada do VLM. Quem falou que é simples assim, substituir um projeto por outro, apenas quis amenizar a conversa. Acredito que o problema pode ser de governança, pois já tivemos doze diretores do IAE nesses 30 anos; e nos últimos dez anos, seis ministros da Ciência, Tecnologia e Inovação. Isso explica muita coisa, diz um servidor do IAE.

Ele não mencionou, mas pode ser acrescentado o rodízio habitual nos cargos de direção do DCTA. Por exemplo: o brigadeiro Alvani, um dos autores do anúncio de extinção do VLS-1, já não é mais o diretor geral do DCTA, tendo assumido, em 10/3, a Chefia de Assuntos Estratégicos (CAE) do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas (EMCFA).

De um lado, as periódicas promoções e substituições de oficiais superiores tenentes-coronéis, coronéis-aviadores, brigadeiros nos cargos de comando, que são usuais e características da hierarquia militar, podem vir a ser prejudiciais caso esses cargos respondam pela direção de órgãos encarregados de projetos científicos de longo prazo, ou caso sejam importantes chefias ou gerências de tais projetos. Por outro lado, nem sempre o oficial nomeado para determinado cargo de órgão ligado ao setor espacial tem a necessária disposição para exercê-lo.

Como já apontado na audiência do Senado pelo representante do SindCT, foguetes lançadores de satélites civis devem ser desenvolvidos por civis. No entanto, mesmo depois que a Comissão de Investigação identificou graves erros de gestão na origem da tragédia de Alcântara (2003), o comando do programa permaneceu nas mãos do DCTA.

De outro lado, equívocos nas definições da política de ciência e tecnologia afetam diretamente o setor espacial, em função de um ministério frágil, ora capturado por interesses privatistas, ora utilizado pelo governo como moeda de troca com partidos aliados, disso decorrendo constante troca de ministros. Da AEB já se conhece a extensa lista de erros cometidos (ver, p. ex., edição 40 do Jornal do SindCT).

Assim, se quisermos usar um vocábulo emprestado da informática, o problema de governança do VLS tem interface militar e interface civil. Parece nascer da combinação inusitada entre a frequente troca de gestores na área militar (vinculada às necessidades organizacionais da Aeronáutica) e a frequente troca de gestores no MCTI (vinculada às necessidades políticas do governo federal). Por outro lado, como visto, a própria gestão do projeto por militares é questionável, sendo um grande ponto de interrogação a real influência e participação da AEB no debate sobre o destino do VLS.

A direção do IAE foi contatada inúmeras vezes pelo Jornal do SindCT, mas não respondeu.


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Anúncio oficial do fim do VLS-1 à força de trabalho do IAE em 29/2/16.

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VLS-1(v03) na torre de lançamento do CLA, em agosto de 2003.



http://brazilianspac...a-e-gestao.html

Edited by Soheil, 09 May 2016 - 12:04 AM.

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