Jump to content

Theme© by Fisana
 

Photo
- - - - -

O ecológico acima do econômico


  • Please log in to reply
No replies to this topic

#1 zhurnalist

zhurnalist

    Registered User

  • Administrators
  • 11924 posts

Posted 02 January 2014 - 10:19 PM

.

O ecológico acima do econômico

Uma das mais urgentes e inadiáveis necessidades em termos de organização da

sociedade produtiva é a de conciliar o desenvolvimento econômico com a promoção do

desenvolvimento social e o equilíbrio ecológico, respeitando e resguardando, antes de

qualquer coisa, o meio ambiente, a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos – base

e suporte da atividade econômica.

 

 

Marcus Eduardo de Oliveira (*)

Uma das mais urgentes e inadiáveis necessidades em termos de organização da

sociedade produtiva é a de conciliar o desenvolvimento econômico com a promoção do

desenvolvimento social e o equilíbrio ecológico, respeitando e resguardando, antes de

qualquer coisa, o meio ambiente, a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos – base

e suporte da atividade econômica.

A noção central em torno dessa ideia é bem simples: trata-se de procurar

compatibilizar as dimensões econômica, social e ambiental. Esse é o ponto de partida

para tentar superar, num primeiro plano, o dilema dicotômico verificado nas nações

modernas entre a política de “crescer” e a necessidade de “preservar o equilíbrio

ecológico”; dito de outra forma, entre o “prosperar” (econômica e socialmente), mas

“sem destruir” (ambientalmente).

Na essência, busca-se com isso alcançar e cumprir três princípios básicos que

estão referenciados no conhecido Relatório Brundtland, também chamado de “Nosso

Futuro Comum”, a saber: 1) desenvolvimento econômico (aspiração imanente da

humanidade); 2) proteção ambiental (o cuidado para com a nossa Casa Comum, a Mãe

Terra, Gaia para os gregos e Pachamama para os indígenas andinos); e, 3) equidade

social (a inclusão dos excluídos).

Para superar essa dicotomia, tem-se um evidente questionamento do

ecologismo sobre a racionalidade econômica, tendo em conta que essa última, pelas

lentes do pensamento neoclássico (tradicional) - que em geral forma a maneira de

pensar de boa parte dos economistas – pouca importância confere às consequências

(degradação do capital natural) ambientais advindas de intenso e frenético estímulo ao

crescimento econômico.

Por sinal, alcançar o crescimento da economia a qualquer “custo” se

transformou numa espécie de obsessão da macroeconomia convencional, ignorando

com isso os graves distúrbios gerados na biosfera, pondo em risco a base de

sustentação da vida, uma vez que, em decorrência da expansão econômica produtiva

os limites biofísicos passam a ser desrespeitados. É a atividade econômica dilapidando

o capital natural.

 

Nesse pormenor, cumpre realçar importante passagem que consta do Manual

Global de Ecologia (1993): “A produção de alimentos, energia e artigos industrializados

está fortemente relacionada à deterioração do sistema que garante a vida na Terra.

Entre 1950 e 1986, quando a população do mundo duplicou, o consumo de grãos

aumentou 2,6 vezes, o uso de energia cresceu 3,2 vezes, a potência efetiva da

economia quadruplicou, e a produção de bens manufaturados cresceu sete vezes. (...)

Atualmente, o ser humano consome em alimentos, direta ou indiretamente, cerca de

40% do total de terras cultivadas no mundo”.

É exatamente por esse tipo de “atuação invasiva” que o crescimento econômico

não pode continuar sua “jornada” de deterioração sobre os recursos naturais,

dilapidando sobremaneira os principais ecossistemas.

Continuar estimulando a aceleração do crescimento produtivo é, na prática,

aumentar substancialmente a perda de diversidade biológica e ecossistêmica.

Aumentar a produção econômica, dentre tantos outros possíveis estragos ambientais,

também é sinônimo de poluir mais ainda a atmosfera.

Sobre isso, reitera-se que os elevados níveis de poluição e contaminação do ar

não deixam dúvidas quanto à reposta que esse tipo de “prática econômica expansiva”

oferece ao meio ambiente. Nos dias atuais, mais de dois milhões de pessoas morrem a

cada ano no mundo por “respirar poluição”, alojando nos pulmões pequenas partículas

(PM 10) geradas pela queima de combustíveis fósseis, além da poluição de ozônio (O3).

Somente na América Latina e no Caribe, a cada ano, morrem aproximadamente

35 mil pessoas devido à contaminação do ar; na Europa, são mais de 150 mil e, no leste

da Ásia, mais de 1 milhão de vidas são ceifadas pelo mesmo motivo.

Por isso, o posicionamento ecológico, ao deixar claro que há limites e medidas

restritivas para o aumento da produção econômica, deve estar acima do pensamento

econômico tradicional, ferindo assim, para desespero dos economistas tradicionais,

o dogma atinente ao crescimento econômico, visto e defendido erroneamente como

fator preponderante para consolidar a prosperidade de uma sociedade.

Com um padrão de consumo avassalador, alimentado pela voracidade

consumista de 20% da população mundial (1,4 bilhão de pessoas) residente nas

sociedades mais abastadas, o Planeta Terra apresenta sinais de completo esgotamento,

evidenciando que não suporta produções expansivas.

 

Não por acaso, 10% da terra fértil do planeta já se transformou em deserto. Por

ano, são perdidos 7 milhões de hectares. Simplesmente, 60% dos principais serviços

ecossistêmicos estão deteriorados.

Não por acaso ainda, nos últimos 50 anos houve uma perda de 35% dos

manguezais, 40% das florestas, 50% das áreas alagadas. Atualmente, os estoques de

peixes estão 80% menores e a área cultivada do planeta cobriu 25% da superfície da

Terra.

Lamentavelmente, esses dados mostram que o posicionamento econômico

encontra-se acima da questão ambiental. Urge reverter isso.

(*) Professor de economia. Mestre em Integração da América Latina (USP).

prof.marcuseduardo@bol.com.br


  • 0




0 user(s) are reading this topic

0 members, 0 guests, 0 anonymous users

Copyright © 2020 Pravda.Ru