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ARTHUR SOFFIATI - Junho de 2014


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#1 macaense

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Posted 22 June 2014 - 01:45 AM

NÃO PODENDO ESCREVER DIREITO, MANDO UM ARTIGO ANTIGO

Como assisti aos jogos da Copa
Desde 1958, tenho por hábito parar tudo no período dos campeonatos mundiais de futebol e dedicar-me a assistir a todos os jogos, dos mais chinfrins aos mais conspícuos, além de acompanhar os programas de televisão, com comentários de especialistas, e ler jornais. Este ano, infelizmente, algumas dificuldades me impediram de manter a tradição. Assim, vi-me obrigado a uma estratégia bem econômica que passo a relatar.
Primeiramente, decidi acompanhar todos os jogos do Brasil. Neste mister, esforcei-me, como todo brasileiro, para colocar Deus em campo, jogando em todas as posições, à revelia das escalações de Zagallo. Como Deus é invisível, não sabemos se ele aceitou ser escalado ou se também jogou mal. Fica o consolo de achar que Ele estava lá nos jogos contra a Escócia, Dinamarca e Holanda, jogando tão mal quanto os outros, mas ganhando. Talvez estivesse lá nos jogos contra Marrocos e Chile, jogando menos mal. Nos jogos contra a Noruega e a França ou não entrou em campo ou teve convulsão.
Com respeito aos jogos dos outros selecionados que não o brasileiro, só pude assistir ao jogo dos Estados Unidos contra o Irã. No mais, contentei-me com os melhores momentos e com a cobrança de pênaltis. A bem dizer, os melhores momentos de todos os jogos foram os menos piores momentos. No jogo do Brasil contra a França, só houve, da parte do Brasil, piores momentos. Quanto à cobrança de pênaltis, contei como mais importantes as bolas que não entraram do que as bolas que entraram. Se, entre 1958 e 1970, importavam mais os gols, daí em diante passaram a valer mais as poucas defesas e os muitos erros de conclusão, com a bola sendo chutada em todas as direções, menos na direção da meta.
Todo mundo tem uma explicação para a derrota do Brasil. Por que eu também não teria a minha? Acho que Zagallo cometeu um erro imperdoável ao exibir para entretenimento dos jogadores, antes do jogo de estréia, o filme O Inquilino, Polanski. Nele, um homem resolve se matar atirando-se do quarto andar de um edifício e não logra o resultado pretendido. Então, ele sobe novamente e se joga outra vez. Ao fim do filme, comissão técnica, titulares e reservas foram acometidos de profunda depressão, não pelo filme propriamente, mas por concluírem que o pentacampeonato estava perdido. Daí a decisão de um suicídio coletivo logo nas oitavas de final. Só que, sob influência do filme, ninguém quis correr o risco de um suicídio malsucedido. Matar-se nas oitavas de final correspondia a atirar-se do quarto andar e não morrer.
Zico, na sua prudência, sentenciou: se desejamos mesmo morrer, melhor é nos atirarmos da Torre Eifell. Vamos à final para valorizar mais a nossa morte. Dito e feito: saltaram todos da famosa torre, sofrendo morte garantida. Todos sustentaram com dignidade o pacto, apesar do medo natural. Assim se explica a convulsão de Ronaldinho. “Eu não queria morrer tão moço, ainda mais de suicídio”, lamuriou ele. No entanto, já era tarde.
_______________________
soffiati@folha.censa.com.br


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#2 macaense

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Posted 26 June 2014 - 02:03 AM

ARTHUR SOFFIATI

MAIS UM

Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 02 de Julho de 2006

O futebol como cultura imaterial tombável
Arthur Soffiati

Segundo os especialistas em proteção ao patrimônio cultural, só é possível tombar os bens materiais, pois eles são mais duráveis que os bens imateriais. A cultura material é como o esqueleto de uma cultura. Depois de sua morte, esvai-se a alma e decompõe-se a carne, mas o esqueleto permanece. Mesmo ele, com sua consistência, pode esfacelar-se um dia ou fossilizar-se. Não sem razão, os paleontólogos trabalham com ossos internos ou com exoesqueletos.
Transportando esta imagem para as culturas, podemos considerar as ruínas de Mohenjo-Daro e Harappa como ossos da civilização índica, que vicejou no vale do rio Indo entre 2500 e 1500 antes de Cristo. Por estes vestígios materiais, é possível, dentro de certos limites, reconstituir o corpo e o espírito desta civilização. E, para proteger seus remanescentes materiais, promover o tombamento deles. No entanto, não conseguimos tombar as manifestações culturais imateriais do passado porque elas expiraram. Tampouco podemos tombar as manifestações imateriais de culturas vivas porque elas se transformam com muita rapidez, notadamente num mundo globalizado em constantes e rápidas mudanças. Como dizia Toynbee, a gente começa falando o sânscrito e acaba falando o prácrito.
Pretendendo proteger manifestações culturais imateriais brasileiras, mesmo sabendo-as inapreensíveis, o Governo Federal instituiu o Decreto nº 3.551, de 4 de agosto de 2000, que apenas promove o registro do bem imaterial — não o seu tombamento — para conferir-lhe a condição de patrimônio. De fato, como tombar a Folia de Reis, o Boi-de-Mamão, as técnicas de produzir o chuvisco e o queijo de Minas, se são manifestações da cultura imaterial? Na sua lábil condição, o tombamento seria um instrumento inadequado e também inútil, já que não poderia congelar tais emanações da alma humana.
Talvez houvesse uma solução: registrar os bens imateriais em tecnologias capazes de armazenar suas imagens e seus sons. Mas, tais bens têm como característica a repetição e, ao mesmo tempo, a mudança. A menos que houvesse eventos no interior destas manifestações destacando-se delas ou representando momentos imprevisíveis e únicos. Creio que este é o caso do futebol.
Enquanto fenômeno cultural, ele é imaterial, por mais que cercado pelo material: o campo, os jogadores, a bola, os marcos espaciais. No final, o que importa no futebol é seu espírito, são suas escolas, são as jogadas, é a habilidade dos jogadores e a qualidade do conjunto. Terminado o jogo, ficam lá o campo e os marcos e saem os jogadores com a bola. As jogadas podem permanecer na nossa memória ou registradas em imagens fixas ou em movimento.
Contam que Domingos da Guia entrava em campo com sua postura sifótica e com uma fisionomia meio imbecilizada. Enquanto os jogadores se aqueciam, ele ficava parado no seu canto, como alheio a tudo. Começado o jogo, tinha-se a impressão de um pateta na defesa, mas tão logo um atacante penetrava em sua zona, ele o desarmava com toques curtos, driblava em espaço mínimo, desconcertava os adversários e fazia lançamentos de 40 metros para os companheiros. Tratava-se de um jogador fenomenal, que praticou jogadas inimagináveis. Será que elas foram registradas em celulóide?
E o que dizer de Zizinho, de Didi, de Nilton Santos, de Pelé, de Garrincha, de Amarildo, de Falcão, de Gerson, de Rivelino, de Quarentinha, de Zico, de Sócrates e tantos outros jogadores que praticaram lances irrepetíveis e inesquecíveis? Levanto, a título de ensaio, a proposta de criar uma comissão de especialistas que escolha, com a ajuda do povo, as jogadas célebres do fantástico futebol brasileiro, numa seqüência em que elas possam ser acompanhadas do princípio ao fim, com o objetivo de tombá-las. Há tempos, venho refletindo sobre esta possibilidade. Creio que, neste caso, o caráter irrepetível, individual, inesperado e imprevisível torna materializável a manifestação imaterial. Contaríamos, assim, com um acervo dos mais preciosos de nossa cultura, que poderia ser reproduzido para a comercialização. Os amantes desta arte disporiam, desta forma, da oportunidade democrática de contarem em seus acervos particulares com um riquíssimo patrimônio.


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