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IMPÉRIO NUCLEAR - A ERA PÓS-FUKUSHIMA - por Patrícia Neves. Livraria Portuguesa's photo. <posted by macaense>


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3 replies to this topic

#1 macaense

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Posted 06 October 2014 - 02:45 PM

IMPÉRIO NUCLEAR - A ERA PÓS-FUKUSHIMA - por Patrícia Neves.

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IMPÉRIO NUCLEAR - A ERA PÓS-FUKUSHIMA
Autora: Patrícia Neves
Este livro resulta de duas deslocações que fiz ao Japão, uma em Março de 2011, quando fui enviada pela agência Lusa para fazer a cobertura do tsunami, e outra cerca de um ano depois, em meados de 2012, na companhia de Carolina Rodrigues.
Da primeira vez, fiquei apenas cerca de uma semana e meia no país, pois logo após as três explosões na central nuclear de Fukushima Daiichi, não se dispunha de informação precisa sobre os riscos derivados da libertação de radiação pela central para a saúde humana, muitos jornalistas estrangeiros optaram então por partir e eu fui uma delas.
Mas em 2012, regressei e passei cerca de um mês no Japão para recolher mais testemunhos para este livro e também para um filme documentário que estamos a terminar sobre o mesmo tema, tendo estado inclusivamente em áreas próximas da central nuclear de Fukushima Daiichi.
Desloquei-me desta vez ao país para observar os efeitos de um desastre único no mundo, já que nunca se tinha verificado no mesmo local e simultaneamente um sismo que foi dos mais potentes de sempre, um tsunami como não havia registo no Japão há mais de 1000 anos e que causou mais de 18 mil mortos e um acidente nuclear, que foi o primeiro do século XXI.
Duas grandes interrogações guiaram este trabalho. Por um lado, questionava-me porque razão o Japão, que foi o único país do mundo a ser alvo de bombardeamentos atómicos, se transformou no terceiro país do mundo com mais reactores nucleares, depois dos Estados Unidos e França.
E, por outro lado, queria perceber como foi possível o Japão, considerado como o centro tecnológico do mundo, ter sido palco de um acidente nuclear com o mesmo nível de gravidade do que o de Chernobil, especialmente por ser dos países mais sísmicos do mundo e também dos melhor preparados para tal.
O que vários japoneses me contaram em entrevistas que realizei é que, cerca de dez anos depois dos bombardeamentos atómicos de Hiroxima e Nagasaqui, o Governo japonês, com o apoio dos EUA, procurou angariar o apoio da população para a utilização da energia nuclear com fins pacíficos e em prol do desenvolvimento do Japão.
Dada a carência de recursos naturais do país e o desejo de ver o país transformado numa potência industrial, os japoneses passaram a encarar a energia nuclear como uma aposta necessária, incluindo os sobreviventes dos bombardeamentos, segundo os próprios me relataram.
O crescimento económico e a consequente necessidade de energia foi, portanto, a desculpa oficial para justificar a aposta no nuclear. Mas vários analistas disseram-me estarem convencidos de que o Governo japonês estava sobretudo interessado em apostar na energia nuclear com o objectivo de dominar a tecnologia para também conseguir produzir armas.
Na década de 70, a energia nuclear foi considerada como prioridade estratégica nacional pelo Governo japonês. Surgiu um movimento de oposição, que se revelou pouco popular, mas que já alertava para o perigo de construção de centrais nucleares num país muito sísmico. Falamos de um país que regista por ano cerca de 150 mil sismos, dos quais cerca de 1500 são sentidos pela população.
Nessa altura, quando se começou a acelerar a construção de centrais nucleares em território japonês, o tema da radiação foi eliminado do currículo do ensino secundário.
Os japoneses reconhecem hoje que se criou um mito de que as centrais nucleares eram completamente seguras e tanto a população como o próprio Governo acabaram por acreditar nisso mesmo.
A população porque foi convencida a isso e o Governo porque se convenceu de que o risco de se verificarem grandes sismos e tsunamis era muito baixo e de que as suas centrais nucleares eram muito seguras dado o elevado domínio tecnológico do país.
As centrais nucleares foram, portanto, construídas com uma resistência mínima das populações locais e, até 2011, elas geravam cerca de 30% da electricidade do Japão.
A central de Fukushima Daiichi tinha um muro de proteção contra tsunamis de cerca de 6 metros, mas o tsunami de 11 de Março de 2011 superou os 15 metros de altura.
Segundo especialistas que entrevistei e relatórios sobre o acidente, o Governo sabia da possibilidade de ocorrência de um tsunami destas dimensões, e na região de Fukushima, havia previsões que indicavam isso mesmo, mas deixou ao critério das empresas a adoção de medidas de prevenção porque a probabilidade de ocorrência de um grande maremoto era baixa. E a empresa gestora da central de Fukushima decidiu não reforçar as medidas, pois teria que investir muito dinheiro e a energia nuclear era promovida como tendo baixos custos associados.
A empresa em questão, a TEPCO, que esteve envolvida no passado em escândalos por falsificação de relatórios de inspeções e trabalhos de manutenção nas suas centrais e apresentação de informação falsa às entidades reguladoras, chegou mesmo a pedir a uma entidade governamental que suavizasse um relatório que falava da previsão de um grande sismo e tsunami para a área de Fukushima.
Existia, portanto, uma fraca regulação da indústria nuclear, segundo concluíram entidades japonesas que investigaram o acidente nuclear. Tanto o Governo como a indústria nuclear receavam a adoção de certas medidas que levassem a população a questionar a segurança das centrais nucleares e a eventualmente deixarem de apoiar este sector. Para isto também contribuiu o facto de alguns políticos assumirem cargos de topo em empresas do sector da energia nuclear.
O nuclear foi então promovido ao longo dos anos como uma fonte de energia com muitas vantagens, sendo apresentada como muito segura, barata e depois como necessária em termos ambientais por não emitir dióxido de carbono.
Até Março de 2011, a população japonesa acreditava que não havia riscos associados às centrais nucleares, porque o Governo e as empresas do sector da energia nuclear lhe diziam que não havia e porque até aí não tinham sido registados acidentes graves.
Existe, portanto, uma tese unânime de que o acidente de Fukushima foi despoletado por um desastre natural, mas que foi causado pelo Homem. Tratou-se sobretudo de um erro humano. Ou seja, o acidente de Fukushima poderia ter sido evitado ou pelo menos as suas consequências minimizadas.
Inevitavelmente, o acidente de Fukushima gerou uma crise de confiança e a revolta não tardou a chegar às ruas do Japão. O país foi palco das maiores manifestações em 40 anos num país em que os protestos eram eventos raros.
Para essa revolta também muito contribuiu problemas de gestão do acidente. Os residentes de Fukushima disseram-me que a informação que lhes chegou no pós-acidente era pouco precisa e confusa, o que fez nomeadamente com que algumas das mais de 200 mil pessoas forçadas a abandonar as suas casas na sequência da criação de uma zona de exclusão de 20 km em redor da central de Fukushima tivessem procurado refúgio em áreas com elevados níveis de radiação, julgando estarem aí mais seguras. Pois nunca lhes foi dito onde estariam seguras. Isto porque o vento dispersava a radiação.
A população de Fukushima sente hoje que o Governo lhe escondeu informação, compreendendo que o fez para evitar o pânico, mas teme que isso possa vir a ter consequências muito mais graves, nomeadamente sobre a sua saúde.
O acidente acabou por mudar radicalmente a forma como a população japonesa olhava para a energia nuclear.
Rapidamente o medo instalou-se no país, sobretudo o medo de que o acidente de Fukushima venha a ter consequências semelhantes às do acidente de Chernobil. Numa fase inicial, o Governo japonês sublinhou que o acidente de Fukushima era diferente do de Chernobil, considerando ser menos grave.
As consequências estão de facto ainda por apurar, mas não podemos ignorar que o acidente no Japão foi classificado com o mesmo nível de gravidade do que o de Chernobyl a nível internacional.
Os residentes de Fukushima que conheci temem sobretudo os efeitos da radiação libertada pela central sobre a saúde dos seus filhos.
Depois do acidente de Chernobil foram diagnosticados milhares de casos de cancro da tiroide entre jovens com menos de 18 anos. Em Fukushima, nestes três anos após o desastre, já foram diagnosticados mais de 70 casos de cancro da tiroide entre jovens com menos de 18 anos. Mas não há até ao momento qualquer morte oficialmente associada à radiação.
Mas há mães em Fukushima, como algumas que conheci, que aconselham as suas filhas a não terem filhos porque receiam eventuais efeitos genéticos, apesar de isso não estar cientificamente provado.
Os cerca de dois milhões de habitantes da província de Fukushima vão ser alvo de exames médicos regulares durante o resto da sua vida, tal como se verificou com os sobreviventes dos bombardeamentos atómicos de Hiroxima e Nagasaqui.
E o medo dos efeitos da radiação sobre a saúde levou mais de 80 mil pessoas a deixarem a província, incluindo médicos.
Algumas pessoas de Fukushima confessaram nas entrevistas que realizei que foram alvo de situações de discriminação por ter começado a circular o rumor de que a radiação era contagiosa, tal como aconteceu há mais de 60 anos em Hiroxima e Nagasaqui.
Isto porque a radiação nao se vê, não se cheira, não se sente e porque ainda não são totalmente conhecidos os seus efeitos sobre a saúde humana.
Houve famílias que me contaram que os seus filhos foram vítimas de bullying nas escolas, que foram impedidos de usar casas de banho públicas fora da província e que até médicos os recusaram receber.
E esta discriminação também foi registada no interior da própria província de Fukushima, sendo praticada por quem vive mais longe da central nuclear contra quem vivia mais perto.
Também muitas pessoas que decidiram regressar a Fukushima por não terem conseguido retomar a sua vida noutros locais acabaram por se sentir discriminadas por quem nunca deixou a província.
]Em Fukushima, pude constatar que o medo de adoecer domina o dia a dia da população, que está constantemente preocupada com o que é seguro ou não, se os alimentos que encontra nos supermercados são seguros, se o ar que respira é seguro.
Os instrumentos que medem os níveis de radiação do ar fazem já parte do mobiliário urbano em Fukushima e os trabalhos de descontaminação arrancaram em áreas onde a população reside, incluindo escolas, que hoje têm a terra contaminada enterrada no centro dos seus recreios, por debaixo dos pés das crianças que ali brincam, por não haver, para já, outro local para a armazenar.
A população de Fukushima está em queda e a previsão é de que as áreas próximas da central nuclear permaneçam inabitáveis nas próximas décadas, tal como aconteceu em Chernobyl. Há zonas na área de exclusão onde já se pode entrar, mas não pernoitar, e onde o tempo parece ter parado, por estar tudo como as pessoas deixaram no dia 11 de Março de 2011, quando tiveram de fugir.
Cerca de 160 mil pessoas continuam longe das suas casas em Fukushima, sem perspectivas de regresso, e os cerca de dois milhões de habitantes deverão preocupar-se durante toda a sua vida com uma eventual maior probabilidade de contraírem cancro.
A situação na central nuclear também gera preocupação pelas fugas de água contaminada que têm sido registadas, nomeadamente para o oceano Pacífico, desconhecendo-se, para já, eventuais consequências sobre o ambiente marinho.
Entretanto, todos os reactores nucleares estão hoje parados no Japão para inspeções de segurança, mas o actual Governo já anunciou a intenção de os voltar a ligar alegando razões económicas. O futuro do nuclear está, portanto, nas mãos da população japonesa, que está hoje dividida como nunca sobre esta matéria.
O acidente nuclear de Fukushima renovou, pelo menos, a consciência de que as centrais nucleares têm riscos associados e de que as suas consequências perduram no tempo e poderão não ser diferentes noutros países.
Esta é, de facto, uma história com um desfecho ainda em aberto, especialmente porque a terra continua a tremer no Japão e a população continua a recear que a situação na central de Fukushima se agrave, já que o processo de desmantelamento da central deverá demorar cerca de 40 anos a concluir.

 


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#2 macaense

macaense

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Posted 06 October 2014 - 03:02 PM

I have also read a few topics on Fukushima and posted them at the China Daily forum: http://bbs.chinadail...es&kw=fukushima


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#3 macaense

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Posted 08 October 2014 - 02:37 PM

Império Nuclear  -  de Patrícia Neves -  http://jtm.com.mo/lo...shima-em-livro/


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#4 macaense

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Posted 08 October 2014 - 03:38 PM

FUKUSHIMA  -  Radiation  -  documentary, video

 

 


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